Tio Mario
Vindo dos Campos Elíseos, após a extinção desse, Mário Ezequiel, o nosso querido Tio Mário, passou a ser Camisa Verde e junto com Seu Inocêncio, Dona Sinhá, Tobias pequeno e a Magali não pertencia a escola na época, conhece grande parte da história do Camisa Verde.
- "O Camisa Verde é como a minha família, pois aqui eu me consagrei e jamais deixarei essa bandeira! Inocêncio era um batalhador e talvez muitas pessoas não o conheçam, nem tampouco, saibam de fatos ocorridos durante aquele período difícil, onde o samba e o negro eram marginalizados. Mas eu andava muito com ele nessa época, na qual ele trabalhava em uma oficina de geladeira e desfilávamos de tênis e cetim. Inocêncio foi a mola propulsora que sustentou, dando base ao filho Tobias que, depois do pai, se tornaria o segundo maior sambista no Estado de São Paulo. A base toda da escola está estruturada no suor e no sangue de Inocêncio, que não poupava esforços, vendendo em determinada época os móveis da própria casa dele na finalidade de transformar o Camisa numa potência, como de fato a escola se tornou. Ao seu lado, contava com a companheira Cacilda Costa, Dona Sinhá, uma baluarte do samba porque o Inocêncio estava cuidando de uma determinada área, enquanto ela cuidava de outra. Não era um desencontro, mas um encontro de pensamentos e atitudes, porque ambos estavam sempre participando de todas as atividades da entidade.
O cordão era muito gostoso e os desfiles também. Como somos uma família, e em qualquer família há divergências, havendo algum descontentamento dialogávamos, mas o respeito sempre prevalecia. O tratamento era muito particular até mesmo porque não contávamos com tantas pessoas e, na grande maioria, quem participava dos ensaios e dos desfiles também era oriunda do próprio bairro. Anos depois, década de setenta, ocorreram grandes transformações e com o crescimento do carnaval, com o aumento de componentes e a transformação de bairro residencial em área comercial, a Barra Funda, o nosso quartel general do samba teve que se adequar às mudanças exigidas por novos tempos. Então, o cordão deixou de existir por falta de outros concorrentes e nos tornamos escola de samba e o número de componentes aumentou muito. Contudo, o nosso amor pela escola nunca se modificou, tanto que, a pedido de Inocêncio Tobias, colaboramos com a construção da sede. Em 1980 perdemos o nosso notável amigo e em curto espaço de tempo mais dois sambistas de expressão: Dona Sinhá e o filho Tobias, deixando uma história para todos nós. A morte é um pretexto que a vida encarrega de dizer, mas ninguém será tão notável quanto eles.
A nossa escola sempre foi madeira de lei, porque sempre que tivemos maus momentos nós soubemos nos superar. Tobias faleceu um mês antes do carnaval e sob forte emoção desfilamos com garra, trazendo mais um título para a nossa galeria. E, em 1996, com um desfile atípico fomos rebaixados, mas o rebaixamento, o cair para subir, podemos entender como um alerta. "Ser Camisa Verde... não é brincadeira! É tradição, é qualidade. E, quem é Camisa Verde, nunca mudará". Houve épocas em que várias pessoas deixaram de sair na escola, e como sou muito mais participativo fora da direção, conversava com essas, perguntando-lhes os motivos pelos quais se afastaram da entidade. "É Tio Mário, não dá mais para a gente". Eu digo não! não vamos pensar em quem está lá e quem não está. Nós vamos lá, nós somos Camisa Verde. A nossa bandeira vai rir".
Espero, que a partir de agora sejam só alegrias, pois estamos completando jubileu de ouro. Vamos nos preparar para vencer, respeitando as nossas co-irmãs, mas cientes das nossas qualidades e das nossas potencialidades. Agradeço a todos e desejo que as pessoas do Camisa Verde e Branco me queiram bem, afinal eu sou Verde e Branco até a morte!."