Sta. Maria
Airton Fortunato, Airton Santa Maria, como é conhecido no meio do samba, está com 59 anos, sendo 57 vividos como sambista.
-"Minha família, já nos tempos antigos áureos nas Perdizes, fazia samba e participava de festa com o pessoal do Geraldinho no Largo São Geraldo no bairro. Depois, por conseqüência, fui conhecer algumas coisas dos Campos Elíseos, umas das primeiras escolas de samba que eu tive contato. A Barra Funda, praticamente ligado as Perdizes, já me integrava, ainda que eu não soubesse. Quando houve o término dos Campos Elíseos, com a morte do baliza, Odilon, o elementar, a escola parou. A extinta escola Campos Elíseos deu força para a Barra Funda, no Largo da Banana e Conselheiro Brotero, através de Sr. Inocêncio, entre outros integrantes, que impulsionaram a nossa verde e branco.
Meu primeiro desfile, em 1967 foi como componente de Ala e logo em seguida, pela facilidade musical, passei a ter lugar junto à ala de compositores, tocando cavaquinho e compondo músicas. Talismã, um senhor que apareceu no meio de nós, éramos garotos, vindo através do Seu Inocêncio. Tobias, nos deixou um rol muito grande de orientações musicais porque fazíamos sambas determinados, bons em letra, mas pecávamos em termos de melodia. Talismã (para nós, o monstro Talismã), artista plástico, músico, compositor, foi engrandecendo o nosso trabalho dentro da nossa querida Verde e Branco. Ideval, Zelão e Jordão, foi uma briga muito séria, tivemos conhecimento com eles através dos anos setenta, participando da disputa de sambas enredos, onde eles tinham uma vantagem muito grande, devido o grande carisma na escola. Eu, Mario Luiz e Wilson Freire, os parceiros que carreguei para a Barra Funda, formamos o trio de ferro na época. Depois de um certo tempo, 1974, viemos sempre brigando muito com o trio de ouro, conhecido trio-metralha. Fizemos uma frente muito forte, culminando, em 1978, agraciados por antecipação como vencedores com o samba enredo Semana de Arte Moderna e os Meninos de 22. Os responsáveis pelo samba: Santa Maria, Ideval, Xuxu, Mario Luiz, Wilson Freire e Neff Caldas.
O samba enredo hoje passou a ser comercial em virtude da exigência das editoras e das gravadoras para que fosse mais curto em adequação ao tempo, e não sabendo dizer se influenciado pela mídia, mas ainda sou dos tempos que tínhamos um enredo. Hoje em dia estão formalizando pagode como samba enredo e penso ser um equívoco. O refrão do samba, se analisarmos, em 1968, a Biografia do Samba foi muito forte em São Paulo em relação a nossa linha melódica. Então, o samba paulistano e a batida dele sempre foi um pouco mais arcaica e raiz, mas nunca marcheado. Teve sim, influências da batida do Rio de Janeiro que atravessaram um pouco a nossa raiz de fazer a nossa batida realmente (o maracatu), um samba redondo dentro de uma batida de baixo e com marcação forte, embora a batida carioca em relação aos tamborins tenha trazido algumas novidades e as nossas escolas aderiram tentando adequar às características de São Paulo. Os apelos nos refrães vieram culminar com as mudanças e nós tínhamos versos feitos por Ideval e os Meninos de Contendores participantes da nossa ala que fizeram um trabalho muito forte, modificando a nossa linhagem de samba. Ocorre que, RJ têm um estilo; e SP outro.
Sou muito feliz no samba porque, em tudo que faço, tenho por princípio bem realizar. Assim, iniciamos um movimento que foi, talvez não reconhecido pela mídia, um sucesso. Montamos uma casa com Galdino, Orlando, Primo, Melão, Paulinho e Dadinho chamado Em Cima da Hora, que hoje não mais existe, no bairro do Limão, por onde passaram diversos nomes da musica popular brasileira aos quais ensinávamos a tocar e a cantar: Toque a mais, Da cor do Pagode, Relíquia, Sensação...
Aconselho aos futuros compositores tentar melhorar as letras e as mensagens em relação aos temas, que mesmo impostos, o compositor deve saber fazer o elementar: a vibração do refrão. Tudo bem, jargões? mas desde que esteja coeso com a proposta do enredo apresentado pelo carnavalesco, por exemplo: o melhor samba de todos os tempos que eu considero, Mangueira - O mundo encantado de Monteiro Lobato. Um samba bom leva às mensagens positivas que você faz através de letra e melodia sem radicalizar, trazendo um sentido cultural, racional e tudo que se passa e se fale em termos da nossa cultura popular brasileira.
No Camisa, em 1978, tenho o grande desfile de minha vida. Quanta emoção desfilar ao som do meu samba enredo, pois sou um dos compositores do mesmo. Acredito que, enraizado em qualquer compositor ou qualquer sambista exista , sim, um amor muito profundo pelas suas cores do seu pavilhão."