Nelson Primo
Subiu ao palco , aos 12 anos, como ritmista de Monsueto e Ataúlfo Alves. Na oportunidade do bate papo, Primo nos agracia com o relato de sua história no Camisa Verde que, por sinal, é bastante rica. Nelson Primo, o componente mais velho de Camisa Verde participa da escola desde a sua fundação, em 1953.
-"No primeiro ano em que o Camisa tornou a sair éramos um grupo de sambistas chamado os Camisa Verde; também não éramos escola, na época, cordão. Com a extinção dos Campos Elíseos fui convidado a ingressar na formação do cordão, e prontamente aceitei, mas nesse mesmo ano desfilei no Lavapés tocando caixa . De 1953 em diante, só me dediquei ao Camisa Verde, onde comecei tocando caixa; posteriormente, fui o criador da ala de cuícas, o introdutor de pratos à frente de uma bateria, mestre de bateria, participação na harmonia e, atualmente, integrante da velha-guarda, a minha paixão. Minha participação maior na escola refere-se à batucada. Nossa escola sempre teve um contingente de grandes ritmistas; então, ao lado de Bifinha e Páscoa tivemos a função de ensinar a garotada, aproveitando o interesse deles que se faziam presentes nos ensaios, e, para não os deixarmos tocando de qualquer maneira, resolvemos ensiná-los. Moral da história, em 1972, montamos duas baterias: uma saía na frente da escola e a outra no fundo e quando eu parava a primeira, dava o sinal para a segunda tocar. É difícil, mas não impossível. Porém, o que marcou a minha passagem na bateria foi um breque. Com, aproximadamente, 250 ritmistas, tive a audácia de fazer um breque sem ninguém tocar e ficar um minuto até todo mundo entrar, sem ninguém dar um vacilo e sem eu usar o apito ou qualquer outra coisa. Uma das minhas façanhas que deu certo".
Inocêncio foi um baluarte! Digo com autoridade, porque o conhecia bem. Em uma determinada época não possuíamos verba; portanto, ele empenhou rádio, geladeira, fogão e outros móveis para colocar a escola na rua. Nem um outro homem faria isso! A falecida Dona Sinhá fazia um caldeirão de sopa enorme e ao acabar os desfiles voltávamos para o porão e depois cada um se dirigia para suas casas. Não éramos só uma escola, mas uma família. Saíamos da Barra Funda até a São João tocando para depois desfilar. Puro amor!
Viajei o mundo e deixei de fazer bailes de carnaval, mas nunca me ausentei de algum desfile da escola. Nossa escola sempre foi celeiro de bambas, tantos notáveis: Talismã, o gênio. Talismã tinha muito talento e, além de compositor, desenvolvia enredos, trabalhava no barracão e tinha uma linha de composição muito poética, sem igual. O único defeito era ser muito simples, mas era um gênio. Na época de cordão, ensaiávamos em frente ao porão da Rua Conselheiro Brotero até a Rua Anhangabaú. Atravessávamos a rua do trem, dando uma volta e voltávamos. Isso para agradecer às pessoas e os comerciantes que colaboravam com o livro de ouro, principalmente a parte da Barra Funda de baixo. O tempo foi passando e a escola cresceu, tendo que se transformar em escola de samba por falta de concorrentes porque havia somente quatro em disputa: Camisa, Vai-Vai, Fio de Ouro e Paulistano da Glória. Eu sempre me emociono com os desfiles do Camisa, portanto, não saberia dizer qual o meu desfile preferido. Houve anos que deveríamos ter ganho e não faturamos, Como entender a cabeça de jurados? É um problema!
Em 1975, deveríamos sair eu, Páscoa e Lagrila, mas como tínhamos visões diferentes, não aconteceu. No entanto, tive a idéia de lançar os dois pratos no carnaval de São Paulo e dessa época só o Odair Menezes atua hoje em dia. Trouxe também o Sabará e o Benezinho e como os anos vão passando, e com eles perdemos a nossa agilidade, sempre ao lado de meninos mais novos ensinava-os para dar continuidade ao espetáculo. A passagem dos pratos é um tanto quanto complicada. A nossa bateria é boa porque tem peças humanas excelentes. Uma vez, Talismã, ao compor um samba muito poético e com menos ritmo pediu: "Primo, não quero essa bateria louca, ouça com carinho o meu samba, precisa vir num ritmo menos ou pouco". O samba ao qual me refiro foi Sonho colorido de um pintor . Os novos sambas são bons, mas o samba Atlântida e suas Chanchadas pode ser definido como samba forte, referencial da escola.
Quantas não foram as vezes que andávamos de mãos dadas com Carlos Alberto Tobias. Já tivemos vários nomes: Gordinho, Branca de Neve, mas ninguém o superava. Tobias era o melhor, tocava surdo como ninguém, por que? Isso se deve ao esforço dele mesmo porque o mais importante em um ritmista não é o que ou quem o ensina algo, mas o que ele próprio desenvolve com o instrumento. Eu toco cuíca e nunca ninguém me ensinou. Nas gravações eu solo na faixa do Camisa, o Oswaldinho na faixa do Vai-Vai e o Feijoada em outros sambas.
Das três gestões: Inocêncio Tobias, Carlos Alberto Tobias e Magali dos Santos, cada um têm o seu estilo e a sua colaboração. Saudades tenho dos velhos desfiles, porque hoje o contingente de componentes, aproximadamente três mil, não nos permite sambar. Hélio Bagunça é um grande sambista que saía dando no pé, mas hoje não daria certo porque atrasaria toda a escola. É bonito, é salutar! mas passou a época. Infelizmente não veremos mais isso, percebam que até os sambas são mais corridos, tornando-se um pouco até marcheados. Mas, o samba me proporcionou muito: viajei, gravei, toquei, ainda assim, financeiramente, um sambista raiz não se realiza. Independente de quem estiver no comando, eu morrerei desfilando somente no Camisa. Embora tendo recebido boas propostas para ganhar dinheiro alto nesse período de carnaval, não me ausentei, o amor fala mais alto. Uma ressalva é a valorização dos que fizeram e fazem parte da escola. A nossa sede têm muito do meu suor . Quantas vezes não empurramos alegorias da Tiradentes para a Barra Funda sem trator, na mão. Depois bebíamos três caixas de cervejas e, se a paga fosse feita em dinheiro, não seria tão válido, tal a importância com a qual nos envolvíamos, era amor!
O desfile de 1997 foi um dos que mais me eocionaram, foi um desfile de ódio, viemos rasgando porque não queríamos ficar no grupo I. Aquilo foi o maior tapa e, ao término do mesmo, tínhamos a certeza de que em 1998 estaríamos presente de onde nunca deveríamos ter saído, no grupo especial.
Assim é o Camisa; enquanto Deus me der saúde, eu sairei na escola. Espero que essa juventude tenha o mesmo carinho, a mesma vontade e o mesmo carisma que nós da Velha-Guarda temos pelo Camisa Verde, pois onde qualquer um de nós estiver teremos a escola dentro do coração."