Janelão
Batizado Otácilo Guilherme, no Camisa ele é o nosso centrador canhoto Jamelão. Na batucada já tocou com Tobias, Ticão, Valdir Bolão, Paulo Henrique, Dadinho, Nelson Primo.
-"Cheguei na escola aos 17 anos, vindo do Lavapés. Na época tinha o sambão às sextas-feiras e aos sábados e tocávamos ali; toquei por dezoito anos. Logo em seguida, o Tobias inventou o pagode de mesa, que em São Paulo não existia e, ao lado de Talismã, Telha, Boca Nervosa e Seu Zezinho do Banjo fazíamos o samba. Não satisfeito e muito inovador, nosso chefe supremo, Tobias, criou a Rua do Samba e o Botequim do Camisa dos quais também fiz parte. Os ensaios de rua tinham um andamento encorpado, diferente de agora, com a presença de muita molecada mesclada a pessoas mais velhas Por isso, fizemos uma bela junção do ritmo de cordão com o ritmo de escola de samba. Dentro de uma batucada minha paixão é o centrado; uns falam contra-surdo, surdo de corte. Eu, como sou da antiga, contra-surdo. Observo mudanças significativas na atualidade, mais recursos. Hoje, um diretor de bateria é mais valorizado do que antes, tem mais apoio, portanto têm o estilo próprio de armar conforme o samba ganhador, arma os ensaios a sua moda, transformando-o em um desfile provavelmente sem problemas.
Como diretor de bateria tive o privilégio de dirigir Ticão Porfírio, Valdir Bolão, Sarará, Telha, Saci, Vinho Tinto... O mais interessante é que eu também já toquei como ritmista ao lado deles, depois fui diretor. O samba antigamente era ensaiado na rua, o primeiro apitador a me dirigir foi o Pato N'agua, falecido. Eu tocava contra-surdo, a peça que dá o ritmo e o andamento para a primeira e segunda direto numa bateria de escola de samba. Em seguida foi o Nezão, Bifinha, Páscoa e Nelson Primo. Essa é a história do samba em São Paulo. O carnaval era majestoso e muita gente hoje em dia não sabe, mas nos bairros, naqueles bloquinhos, os chamados blocos de sujos, as baianas que vemos hoje nos desfiles eram representadas por homens. Todas as brincadeiras surgiam entre os amigos. Pegava-se vestidos das irmãs e primas, pintava-se o rosto de mulher e ia brincar o carnaval, além de defender, com navalhas debaixo das roupas, o pavilhão do ataque dos oponentes rivais. Bifinha era um excelente ritmista, conhecia muito de samba e na nossa época era muita responsabilidade, porque cumpria-se o horário de formar a batucada, cada um pegava a sua peça, todos compenetrados no diretor. Tinham as passagens do samba, os breques, ele montava a passagem e não errávamos. Na época o esquema era na base da convocação: caixa, sai; surdo, cuíca...; na rua o samba falava alto, a bateria subia, não tinha arquibancada era corda, na Lapa, Vila Matilde, Santo Amaro. O carnaval era no ginásio do Ibirapuera. Entrávamos no ginásio, fazíamos as apresentações e depois saíamos. O carnaval nessa época não contava com jurados e ganhava o prêmio quem tinha o breque mais bonito e criativo. De todos os diretores que me comandaram o mais criativo chamava-se Ticão, um negrão alto, tocador de caixa de guerra pequena, sabia inovar como ninguém, fazendo a batucada subir no momento exato, com precisão.
Passados os anos, fui convidado por Carlos Alberto Tobias a assumir a batucada, pois sempre fui muito ágil. Houve uma passagem na qual ocorreu uma peneira, então diversos batuqueiros tocavam, muitos tremiam, mas eu ficava tão concentrado que, por isso, tornei-me o primeiro centrador do Camisa Verde a comandar o ritmo. Atuei como diretor nos anos de 1981 e 1982. Depois, em 1990, ao assumir o comando da bateria, mestre Neno me convidou a assumir como o segundo diretor, já que eu conhecia muito de ritmo e tinha o respeito da rapaziada também. Essa minha passagem de segundo diretor durou seis memoráveis anos.
O carnaval é o coração de uma cidade e mesmo que existam pessoas que consideram um lugar de pessoas indecentes, hoje, quem entra em uma quadra de escola de samba nota que a mesma têm uma identidade que congrega negros, brancos, japoneses, vermelhos, portanto, uma emoção, uma família, que de tantas qualidades avança fronteiras além do território nacional. As crianças trazem os pais, os avôs e a diferente da nossa época é que participam artistas, atletas e empresário renomados que, contrariando o que muitos pregavam, de que vivíamos amotinados feitos maloqueiros, o samba é o mesmo; o conceito não!