Dadinho
O primeiro instrumento a tocar foi o tamborim, seguido pelo surdo, no período de 1964 até 1980, como batuqueiro na escola. Passados os anos, deixou de sair na bateria, mas não se ausentou da escola: harmonia e passista também foi e, embora não mais na batucada, estava sempre por perto da mesma. Na época de batuqueiro fora dirigido por excelentes apitadores e diretores de bateria: Valter Gomes de Oliveira, o famoso Pato N'agua, Nelson Primo, Otácilio Guilherme - Jamelão e Ticão Porfírio.
-"Tecnicamente, Pato N'agua tinha um estilo muito bom, tudo começou com ele através das conversões, pois o ritmo de São Paulo não estava acostumado a isso. Muito criativo e inovador, Pato N'agua era bastante sério à frente da bateria e, às vezes, um tanto quanto brigão. Porém, na época, mesmo com o samba sendo marginalizado, não havia falta de respeito e tudo era resolvido no braço. Pela maneira dele se comportar, os cerca de duzentos ritmistas o respeitavam bastante. Pato N'agua é oriundo da Bela Vista, do Vai-Vai, a nossa maior oponente, mas no Camisa foi bem sucedido porque beijava o distintivo, ou seja, defendia com todo o amor o trevo do nosso pavilhão. Ticão Porfírio, considerado um dos melhores que já dirigiu a nossa bateria, fazia diversas paradinhas. Exímio criador e habilidoso em desenvolver as conversões nos naipes de tamborins, surdos e taróis, aplicava, em determinadas passagens da batucada, alguns ritmos extraídos da música popular brasileira. Certamente, a minha história nos anais da escola relaciona-se ao setor bateria. Desde 1964 até os dias de hoje, mesmo não mais atuando na mesma, acompanho o desenvolvimento e o trabalho dos novos diretores e ritmistas que estão sendo dirigidos pelo Mestre Neno, um dos melhores batuqueiros da nossa bateria. Falar de Mestre Neno é jogar confete, porque o mesmo veio de uma co-irmã, Mocidade Alegre, aproximadamente, aos dez anos, e sempre muito dedicado se destacou, assim como na atualidade os dois filhos dele: Fernando e Felipe.
Estou muito contente com o trabalho do Neno e o considero o melhor em São Paulo e um dos melhores no país. Isso decorre do fato dele estudar música, conversões, combinações, harmonia no ritmo e, principalmente, simplicidade em atuar, respeitando os ritmistas, fato esse fundamental em qualquer momento na vida. Eu, como ritmista, toquei no JB Samba. Por meu desempenho na batucada fui convidado a subir ao palco com o grupo. Fiquei durante seis anos tocando com eles. E, na velha-guarda, estou muito feliz! Aqui nada mais é do que passar o cargo aos mais jovens por afazeres, tendo os mesmos mais condições físicas de executar com precisão tudo aquilo que já fizemos anos passados. Através do nosso presidente Tobias tivemos o apoio e fundamos a nossa velha-guarda que conta com todo o povo da antiga: mestres-salas e porta-bandeiras, passistas, ritmistas, diretores, baianas, compositores... Faz-me lembrar daquele samba "Brinquei em ala, já fui passista".
Nos dias de hoje, o pouco tempo de desfile faz com que cada componente tenha vinte minutos para atravessar a passarela do samba, e isso acarretou em um ritmo mais acelerado, diferente dos carnavais anteriores, bem mais ritmado e cadenciado. Reavivando a memória, e não sabendo se é uma unanimidade, para mim, o grande desfile de todos os tempos na casa e o meu samba favorito é Narainã, a alvorada dos pássaros. Memorável porque a escola surpreendeu a todos nós que lá estivemos, tendo realizado o grande feito de emocionar até mesmo os componentes e simpatizantes das demais agremiações. Tudo foi perfeito! Amanhecia e a escola adentrava na passarela de asfalto. Os pássaros eram soltos em frente ao abre alas, que lindo! Porém, entre tantas alegrias, não esquecerei jamais a nossa queda ao grupo inferior. Entretanto, deixo registrado que a partir de agora as pessoas sentirão um Camisa mais forte do que antes."