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DES-COMPASSO
Nos tempos que o Grupo da Barra Funda desfilava, o chão tremia. Essa marca que não se apaga parece ser nossa sina. As meninas, moças, e seus pais logo atrás, corriam para o portão, debruçavam-se nas janelas, apoiavam-se nos batentes das casas singelas do velho bairro.
E por lá passava o “Seu” Dionísio e a turma, acrobatas da vida, geradores de alegria, os primeiros sambistas paulistas e o nosso velho fundador. Ideólogo de um mundo que não vislumbrou, apenas sentiu. A sonoridade dos rufos dos graves, das caixas estridentes, dos ganzás e das cuícas poderosas tremia o chão. E quando gemia, o surdo deixava no tempo a marca que fica, permanece, que ninguém esquece..
Deve ser por isso que ao chegar do ensaio, em casa, procuro o compasso do meu coração e confundo-o com o da Furiosa, ainda dentro de mim. São ripas velocíssimas, prumcunduns eternos, tamborins ágeis e certeiros. Mas o ritmo não corre; sinto que no peito meu sopro de vida se mantém livre, cadenciado. Deve ser isso a tal cadência, não?
O que nos reserva a passarela do samba, ninguém sabe. Se o futebol é a caixinha de surpresas, o samba de avenida é um contêiner delas. Todas misturadas. A escola tem que sair elegante? O que vale é o brilho na T.V. do sorriso das nossas belas passistas? Ou o ziriguidum delas? A bateria deve evoluir em seu ritmo ou deve fazer coreografias que levantem o povão?
O carnaval surgiu e mudou muito dos anos cinqüenta do século passado para cá. Por isso, é algo especialmente positivo a nossa bateria se prender à sua tradicional cadência. “Seu” Dionísio, Inocêncio, Tobias, Sinhá, Hélio Bagunça, e tantos outros ritmistas e componentes agradecem. E, ao mesmo tempo, não podemos perder o bonde do grupo especial, de onde sempre fomos cativos e inspiradores de alegria. “Não desfazendo de ninguém”, mas nossa história está escrita.
Renato Fontes
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